sábado, 3 de janeiro de 2009

O choque de civilizações (Samuel Huntington) - comentário crítico.

O livro de Samuel Huntington gerou uma das maiores controvérsias debatidas na actualidade. Foram escritos rios de tinta acerca desta obra, muitos foram aqueles que se insurgiram contra a tese base da obra, no entanto não podemos ignorar que “O Choque de Civilizações e a Mudança na Ordem Global” foi uma das obras que marcaram o último quartel do século XX.

Julgamos que esta é a obra indicada para procedermos à elaboração de uma recensão acerca do tema.do choque de civilizações. O livro de Huntington encontra-se dividido em 5 grandes partes, iremos desenvolver a recensão essencialmente a partir da primeira e da última parte visto que são aquelas que consideramos mais úteis e significativas para o desenvolver do nosso trabalho.

A recensão será dividida em três partes: a primeira parte abordará o mundo e as grandes civilizações, a segunda parte constituirá uma reflexão acerca do futuro das civilizações, finalmente a terceira e última parte constituirá uma referência às criticas mais significativas ao livro de Huntington e uma opinião pessoal fazendo um apanhado de toda a controvérsia.

1. Que mundo? O que é uma civilização? O que é a guerra? Estas são algumas das questões que o livro “O Choque de Civilizações” tenta responder. Tentaremos ao longo desta curta e sucinta dissertação demonstrar até que ponto é que o fim da Guerra-fria provocou a mutação dos Estados mundiais.

No seu livro, Huntington concebe primeiramente uma série de conceitos para que possamos compreender melhor o teor da obra. O autor fala-nos da progressiva queda do peso da civilização ocidental e do surgimento de uma civilização em particular que promete gerar um equilíbrio de poderes no mundo: a civilização asiática tendo à cabeça três colossos económicos: o Japão, a China e a Índia. Existe também o conceito de cooperação entre sociedades que tenham algum tipo de afinidades culturais, ou seja, o agrupamento de países em Estados núcleo que, em última análise, vai provocar uma estreita cooperação entre culturas semelhantes. Outra das noções não menos importante que as anteriores é a agressão que o ocidente impõem às restantes civilizações com as suas pretensões universalistas. É importante compreender que estas pretensões criam inevitavelmente conflitos com outras culturas e civilizações. A imposição da cultura ocidental nem sempre é aceite. São estas as traves mestras pelas quais Huntington tenta guiar-se na explicação da sua tese que consiste basicamente em demonstrar que assistimos na actualidade a uma enorme tensão não entre blocos políticos (como aconteceu na Guerra Fria) mas sim em diversos blocos civilizacionais.

Huntington partilha da teoria de Vaclav Havel de que os conflitos culturais podem tomar dimensões alarmantes e hoje serem mais perigosos do que em qualquer outra época da história. Os pressupostos de cariz filosófico, as relações sociais, os costumes culturais e o modo de encarar a vida diferem significativamente entre as civilizações. O fosso é agravado com a revitalização que a religião está a tomar em grande parte das civilizações.

O autor sustenta a necessidade do ocidente “proteger” os seus interesses face às restantes civilizações. A auto protecção do ocidente por sua vez vai fazer com que algumas sociedades se alinhem em seu torno, já outras como é o caso da sociedade Islâmica, vão procurar balançar esta hegemonia do ocidente procedendo ao armamento assim como tentarão também expandir a sua influencia militar. Estão assim criadas as condições para um clima de enorme tensão entre as civilizações, o referido “Choque” que o título nos sugere.

Com o fim da Guerra-fria propagandeou-se a harmonia mundial, segundo muitos finalmente existira um mundo em harmonia. Esta concepção levou mesmo a que investigadores como Fukuyama argumentassem que o fim da História tinha chegado. No entanto as perspectivas de Fukuyama não foram cumpridas. Grande parte dos conflitos pós Guerra-fria desenrolaram-se na Europa. O velho continente foi palco de inúmeros conflitos que vieram provar que o fim da História era uma teoria completamente utópica. Com o fim da Guerra-fria é certo que existiram mudanças, no entanto, essas mudanças não são sinónimo de pacifismo. Com o fim dos grandes conflitos geralmente pensa-se no fim de todas as formas de conflito, no entanto isso nunca vem realmente a acontecer. Os conflitos que hoje vivemos são sobretudo impulsionados por diferenças culturais, económicas e sociais. Podemos mesmo dividir o mundo em duas partes: os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento. Existe um clima de tensão entre estes dois blocos que pode originar conflitos em grande escala. Uma das soluções encontradas para evitar este tipo de conflitos é a subjugação dos países em vias de desenvolvimento aos desenvolvidos. Assim decorreu durante séculos até às guerras pela descolonização que convergiram na independência das ex-colónias, no entanto esses conflitos foram substituídos por guerras entre os povos libertados. Já os países com forte poder económico travam entre si “guerras económicas”. Os conflitos entre países ricos e pobres são tão improváveis como um mundo harmonioso, já que ambos vivem realidades completamente diferentes.

O mundo não pode ser simultaneamente uno e estar dividido em Este e Oeste ou Norte e Sul. O autor optou assim por dividir o mundo em sete grandes civilizações: a ocidental, a latino-americana, africana, islâmica, sínica, hindu, ortodoxa, budista e japonesa. Esta divisão fornece-nos uma estrutura bastante inteligível e permite-nos separar o importante do acessório. Assim este novo paradigma de divisão lançado por Huntington pressupõe que: as forças de integração no mundo sejam mais reais e equilibrem as tendências conducentes à afirmação cultural e à consciência civilizacional, pressupõe também o mundo é dual no entanto tendo o ocidente como civilização dominante assim como a crescente importância dos Estados-nação por último o autor fala de um mundo anárquico cheio de conflitos tribais, no entanto os conflitos mais perigosos surgem entre diferentes civilizações. Este paradigma civilizacional fornece-nos assim um mapa simples para compreendermos a geografia política em finais do século XX. Após a Guerra-fria o modelo da política mundial foi profundamente alterado. Verificou-se que após a Guerra-fria existiu uma enorme proliferação de conflitos entre diferentes grupos civilizacionais, o que levou à tentativa de imposição de paz por parte dos grandes líderes mundiais.

2. Após a apresentação desta nova era na política global, passaremos compreender a relação do ocidente com as restantes civilizações. Neste momento o ocidente é sem sombra de dúvida a civilização dominante. No entanto todas as civilizações conheceram após o seu auge um fim, exemplo disso são civilizações como o Império Romano, o Mongol ou o Otomano. A grande questão que Huntington levanta é tentar saber até que ponto a nossa civilização conhecerá ou não esse fim. O autor sustenta que acaba por ser legítimo que se pense que o ocidente será a “eterna civilização dominante”, muitos europeus e americanos deverão pensar que a civilização ocidental já mais perderá o seu poder para qualquer outra civilização, no entanto era isso mesmo que pensavam os povos cujas suas grandes civilizações acabaram (também elas) por serem destruídas. Temos que ter igualmente noção que o ocidente deu origem a processos de modernização e industrialização que se espalharam por todo o globo o que fez com que as restantes sociedades competissem com o ocidente para tentarem chegar ao seu patamar.

A questão que Huntington coloca é se estes processos de modernização e industrialização poderão por si só serem usados para podermos com toda a certeza afirmar que o futuro do ocidente não será igual ao das civilizações antecessoras. A História tem vindo a demonstrar que o processo de desenvolvimento do ocidente tem vindo a evoluir como as civilizações que o antecederam. Poderá isto querer dizer que o futuro do ocidente será inevitavelmente a queda como civilização. O ressurgimento de civilizações como a asiática ou a islâmica são disso mesmo exemplo. O ocidente presentemente encontra-se já numa fase de queda, assim sendo as civilizações concorrentes do ocidente representam uma ameaça. Assim sendo a possibilidade de haver uma guerra entre o ocidente e os estados-núcleos de outras civilizações não é inevitável mas em ultima análise pode mesmo vir a acontecer. Outra das hipóteses propostas para a queda do ocidente seria a progressiva queda desta civilização nas próximas décadas ou até mesmo séculos, esta parece-nos a perspectiva mas realista das diversas teorias sobre a queda da civilização ocidental.

Carroll Quigley dividiu o crescimento da civilização ocidental em sete fazes: a primeira fase foi quando o ocidente começou a ganhar forma entre os anos 350 e 750, o período de gestação registou-se em meados do século VIII, este período foi seguido de movimentos em frente e para a retaguarda entre fases de expansão e conflito. Segundo Quigley, o ocidente está a sair de uma fase conflitual, assim grandes conflitos internos são praticamente impensáveis. O ocidente está nesta fase a desenvolver o equivalente a um Império Universal sob a forma de um sistema altamente complexo de instituições. Desta forma o ocidente tornou-se uma civilização adulta, tendo entrado na idade do ouro, um período de paz resultante da inexistência de conflitos no seio da própria civilização. Nas civilizações anteriores à ocidental esta fase de ouro terminou de forma repentina ou lentamente, no entanto o que importa realçar é que logo após a idade de ouro todas as civilizações conhecem a “idade das trevas” ou seja um período de decadência que em última análise desemboca com o fim da própria civilização. Segundo a teoria de Quigley, as civilizações desenvolvem-se porque dispõem de um instrumento de expansão que é a sua própria organização política religiosa e militar. Quando as civilizações param com a aplicação dos excedentes em novas formas de fazer as coisas entram num processo de declínio. Após a decadência da civilização assistimos à fase de invasão, ou seja, quando a civilização já não tem capacidade de defesa e deixa os “Bárbaros” provenientes de uma civilização mais jovem e mais forte que apoderarem-se das suas estruturas. No entanto esta perspectiva apocalíptica da civilização ocidental tem algumas reticências, visto que muitas coisas são possíveis mas nenhumas inevitáveis.

Apesar de todas as civilizações terem passado por processos de queda idênticos não podemos efectuar uma teoria que seja comum a todas as civilizações que antecederam a ocidental. Cada civilização tem um motivo específico para o seu fim, na maioria das vezes um motivo interno que leva à queda da mesma. Não podemos considerar que as civilizações têm um prazo de validade. O ocidente continua a crescer economicamente (não tanto como nas civilizações emergentes) cada vez mais existem melhores condições de vida nas sociedades ocidentais no entanto a natalidade está a passar por uma fase negra. No entanto a baixa da natalidade não seria grande problema visto que se poderia sempre recorrer à imigração, desde que fosse uma imigração que comportasse pessoas capazes e que os imigrantes adoptassem a base da cultura do ocidente. Os problemas do declínio da identidade moral, cultural e civilizacional são bem mais gravosos que os problemas económicos ou políticos. É importante enumerar alguns factores que contribuem para manifestações de declínio da moral:

· Aumento de comportamentos anti-sociais com crimes, droga, violência…

· Declínio da importância da família: taxas de divórcio, gravidezes de menores, famílias mono parentais.

· Diminuição do capital social.

· Enfraquecimento geral da ética do trabalho.

· Menor empenhamento no saber e na actividade intelectual.

A sobrevivência do ocidente enquanto sociedade depende em muito do combate a estes recorrentes comportamentos do declínio da moral.

A cultura ocidental é contestada por grupos dentro da própria sociedade ocidental, normalmente esses grupos são compostos por imigrantes que rejeitam taxativamente a assimilação de uma nova cultura. Um bom exemplo disso mesmo é o dos muçulmanos na Europa ou dos hispânicos nos Estados Unidos. Esta recusa de assimilação de culturas por parte dos imigrantes pode fazer com que as sociedades se dividam e, em última análise pode gerar diversos conflitos de carácter social. Esta tendência de tornar as sociedades cada vez mais multi-culturalistas pode trazer grandes problemas no futuro se as sociedades não estiverem preparadas para lidarem com estes fenómenos. Segundo Huntington não são as sociedades que têm obrigação de se adaptarem aos imigrantes mas sim os imigrantes que têm obrigação de se adaptarem à sociedade em que se inserem. O fim de uma civilização pode ser uma realidade quando esta tentar adaptar-se aos povos integrantes da mesma.

3. O livro de Samuel Huntington constitui uma boa fonte de estudo para a geopolítica actual visto que ainda mantém uma certa actualidade, no entanto não podemos tomar tudo o que está escrito no “Choque de Civilizações” como verdade absoluta. Muitas são as críticas efectuadas à obra, críticas essas que nos colocam ainda mais questões sobre esta enorme controvérsia. Alguns dos críticos mais ferozes de Huntington defendem que o objectivo da obra é não mais que desviar a atenção do verdadeiro problema da guerra de expansão imperialista encabeçada pelos sucessivos governo americanos. Trata-se de uma grande quantidade de análises, da construção de uma nova ordem mundial sustentada na hegemonia dos Estados Unidos, no mais velho estilo imperialista. Ou seja, pelo domínio de matérias-primas estratégicas e de mercados para vencer os seus competidores, principalmente a União Europeia, que hoje é o principal obstáculo aos grandes capitais estadunidenses para estenderem-se a todo o mundo. Japão, China e Rússia, separadamente, ainda não são obstáculos. O 11 de Setembro foi um ponto de viragem importante na tentativa de afirmação de políticas imperialistas americanas, visto que a administração Bush quase que impôs aos Estados europeus que se aliassem à América na luta contra o terrorismo. A teoria de muitos críticos de “dividir para reinar” é uma das críticas mais fortes a Huntington e consequentemente aos Estados Unidos. Muitos crêem que o “Choque de Civilizações” é não mais que uma tentativa de disfarçar e legitimar o imperialismo norte-americanos e grande parte das suas políticas.

Aplaudido por uns, vaiado por outros, o certo é que a obra de Huntington foi um forte contributo para o renascer do debate acerca das grandes problemáticas dos diferentes povos e da sua coexistência no mundo. Na nossa perspectiva a problemática do choque de civilizações é muito mais que uma questão meramente religiosa ou até mesmo civilizacional, é acima de tudo uma questão económica e política. Grandes potências mundiais têm usado o terrorismo e o conflito entre civilizações como pretexto para instigarem guerras em diversas partes do globo, no entanto as motivações desses conflitos são acima de tudo económicas e políticas.


André RochA.

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