Importa neste espaço seguir-se uma orientação metodológica. O escritor Espartano apresentou um tema estimulante, resta-nos escrever um artigo de opinião sobre o tema lançado por ele.
O discurso de Antero de Quental, adoptando pontos de vista defendidos por Alexandre Herculano, defende que a falta de liberdade, que o catolicismo retrógrado, que a expansão marítima contribuíram para a decadência do povo português, dos povos ibéricos. Acho oportuno acrescer a tese da "política de transporte" defendida pelo António Sérgio, que nos dizia que o facto de sermos um intermediário, ou seja, limitávamo-nos a transportar um determinado bem para uma grande cidade comercial, trocando por bens que necessitávamos, determinou a queda moral e económica do nosso país. Notemos um aspecto: António Sérgio valoriza o económico, tal como os materialistas faziam, para explicar a decadência do espírito, da moral, da civilização, se é-me lícito recorrer ao termo civilização, ibérica. Entendo agora apresentar o meu ponto de vista.
Antero diagnostica um problema grave, que entorpeceu o povo: uma inércia derivada do poder absoluto. O catolicismo contra-reformista, alheio à diversidade de pensamento, intolerante, determinou o empobrecimento intelectual da nossa Nação. Basta apontar que desde Camões, o grande poeta que surgiu foi Bocage. É um dado que pode nos elucidar para o abrandamento criativo do nosso povo, mas insuficiente. A nossa cultura se fechou, como a China milenar que só há uns quantos anos se industrializou e lentamente começou a absorver culturalmente o Ocidente. Foi proveniente desse fechar-sobre-si que derivou a redução do espírito crítico. Mas não explica tudo: a China está a prosperar vertiginosamente, é um país onde o liberdade não é uma virtude cultivada na praxis diária, logo penso que não será esse o motivo fundamental para explicitar o porquê do nosso adormecimento da marcha dos povos progressivamente avançados e desenvolvidos.
A política de transporte sedimentou hábitos, vícios de enriquecimento fácil. Ao buscarmos matérias-primas, especiarias, ouro, trocávamos na Flandres, a exemplo, o nosso excedente, ou antes, o excedente social dos outros por produtos manufacturados que não possuíamos. Ao facto de não produzirmos, o que normalmente gera abundância, crescimento da população, do consumo e estímulo ao aumento do trabalho, desbaratávamos os lucros provenientes do transportes em produtos que necessitávamos, inculcando o espírito do facilitismo entre as elites políticas. Acresce o facto de demograficamente, pouco mais de 1.000.000 de habitantes possuirmos nesse tempo. Era insuficiente para sustentar o nosso império, para o colonizar, para nos sedimentarmos. Por essas razão começamos a utilizar mão-de-obra escrava. Penso que este factor tenha sido determinante. Contudo, é melhor a quem tenha interesse buscar mais conhecimento na nossa economia medieval, há vícios que remontam desse tempo, a economia não estava suficientemente preparada nem necessitada de mercados externos para exportar volumes da nossa produção. A expansão deveria ser um estímulo, para o nosso enriquecimento, não um fim-em-si, não um meio empírico de enriquecimento. Ao nosso erro estratégico faltou uma concepção doutrinal que nos elucidasse sobre " a natureza da riqueza das nações". Se olharmos o mercantilismo ibérico, veremos o que fundou medidas erradíssimas, pouco pragmáticas, que nos conduziu ao estabelecimento de hábitos errados, à criação de uma elite fraca e inesclarecida.
Educação: as elites em Portugal, sempre preferiram hábitos boémios, lembre-se do fadinho e do vinhinho que tantos gostavam, as touradas que motivavam o seu orgulhinho. Não quis o Marquês de Pombal criar instrução para a classe nobiliárquica, no sentido de criar uma sociedade mercantil??? Infelizmente, mercantil já éramos, faltava-nos uma sociedade industrial. O comércio é importante para conduzir a indústria ao florescimento, é um meio de enriquecimento, não um fim-em-si. Isso é um erro do pensamento mercantilista, porque é estritamente empírico. Outro dado a acrescentar: a terra era propriedade da classe ociosa, o vinho o seu amor. Essa razão limitou o alcance das medidas do Conde de Ericeira, conduziu a uma crónica dependência da Inglaterra.
Síntese: a falta de educação; censura e falta de liberdade; absolutismo político e católico; política de transporta; falta de visão político-económica das classes dirigente; inexistência de um tecido verdadeiramente produtivo, autárquico e direccionado para a exportação; são alguns factores que explicam o nosso relativo distanciamento em relação a algumas nações europeias.
Por fim gostava de referir que o distanciamento geográfico do nosso país do centro conflituoso do continente europeu, da economia-mundo; a estabilidade das nossas fronteiras, do nosso sistema político; a falta de conflitos internos; a prematuridade com que nos lançamos na conquista do mundo, sem experiênciarmos outros exemplo, para ponderarmos medidas adequadas aos nossos problemas; inexperiência; a união ibérica; o desbaratamento do ouro que recebemos do Brasil; a falta de aposta em bens de equipamento; a imitação de modelos estrangeiros, de erradas ideias sem atender às nossas especificidades; o endividamento, a dependência externa financeira de Portugal; o mau destino dado às suas colónias; a falta de um eficaz sistema administrativo e jurisdicional efectivamente operativo e pospectivado segundo um modelo de futuro crescimento económico, construtivo, para a posteridade, explicam em parte a decadência, que não é só nossa neste momento, também europeia!!! Este tema é controvertido, era necessário devido à sua complexidade um manual bem extenso e pormenorizado, para uma adequada resposta ao tema. Infelizmente, o espaço e o local não permite excessivamente uma explanação factorial detalhosa, com referência a fontes históricas e historiográficas. Fica uma breve síntese.
PS: A corrupção é relevante para a evolução de uma sociedade. É sintoma, tem causas e efeitos interessantes de analisar. Penso que não explica de todo a nosso atraso. São sintomas viscerais de um desleixismo, facilitismo, de inadaptação às regras oficiais e sociais de procedimento. Contudo, a Itália está cheia de corrupção, mesmo assim é um país desenvolvido. Pense-se também na Roma Antiga. É um factor a ter em conta, mas não explica ou determina a decadência. É sintoma de falta de inclusão nos parâmetros que a sociedade institucionalmente nos afecta e indica.
Em relação às instituições, é bem mais complexo. Em primeiro lugar, temos de definir que tipo de instituições são as que queremos debater. As políticas??? São a causa, de forças pluralísticas de um povo, a sua concretização, não as suas entranhas. Mas as vísceras também podem estar ludibriadas por instituições. É tautológico. Penso que as instituições sejam como a corrupção, o reflexo de um mau-estar que reflecte determinados factores que se entranharam num determinado povo, não são a causa determinante, são um factor, são um efeito da decadência que vivemos. Afinal de contas, não será a nossa vida feita de diversas decadências singulares que nos afectam???
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Decadentismo peninsular: Berço Lusitano
Publicada por Carlos Vinagre à(s) 21:28
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

1 comentários:
Não concordo de todo com a teoria do transporte apresentada por António Sérgio. Se reparares os holandeses fizeram exactamente o mesmo durante o século XVII, eram apenas intermediários e no entanto conseguiram ser durante esse mesmo século a potência mais desenvolvida da Europa. A Holanda ainda hoje é um país mais desenvolvido que Portugal. Não quero com isto dizer que a política de transporte não tenha contribuído para isso no entanto julgo que foi mínima essa influência.
Enviar um comentário