quinta-feira, 24 de julho de 2008

NEO-IMPERIALISMO


A Globalização gerou um processo de disputa por mercados. As empresas competem pelo domínio de parcelas de consumidores, de capitais, matérias-primas, etc. Grandes sucursais estendem-se desde o E.U.A. ,sede- a exemplo- administrativa de uma multinacional, a uma grande fábrica de produção de bens na China. A mundialização empresarial é efeito deste processo massificador, integrador e estruturante.
A multietnicidade é também o marco mais relevante destas grandes Sociedades cotadas nas gigantescas bolsas mundiais: cada um pode adquirir determinado valor do Grupo Anómino. Com esta oferta de lucros possíveis, seduz-se o comum cidadão, e dá-se um rosto de democracia e de possibilidade de enriquecimento. A ambição reduz a humanidade, e na crença num futuro sorridente, ela se sujeita a péssimas condições laborais e a inumanos salários.
Com efeito, a disputa por novos mercados, por economias emergentes, está a criar pressões sobre os grandes Estados, conduzindo a políticas externas agressivas( ex: guerra no Iraque) sob a capa de uma pseudo-luta contra o terrorismo. Como se fosse possível gastar imensos recursos monetários numa luta contra um inimigo invisível, sem esperar obter grandes lucros. Isto espelha a razão económica, sob a capa da luta pela democracia. Para elucidar melhor, comparemos às grandes cruzadas: no véu do sagrado, da luta pela fé, escondiam-se pesadas razões económicas.
Inerente ao ciclo vicioso e imparável do lucro, base da sustentabilidade capitalista, à falta de estímulo do mercado interno, por razão da inexistência de vontade empresarial e política de aumento dos salários da massa trabalhadora, escolhe-se a exportação para mercados externos ou as deslocalizações, para se obter um lucro fácil, rápido, torrencial. Assim se duplicam fortunas, se colocam em países consumistas produtos a baixo custo. Por isso, é natural que surjam contradicções na luta pelo controlo de mercados. Sobretudo, pelo domínio de matérias-primas essenciais como o petróleo.
Além disso, uma guerra tem sempre potencialidades de revitalizar uma economia em decadência de crescimento económico: olhe-se para os extraordinários 30 Anos Gloriosos na Europa do pós-guerra. Será compreensível, tendo em conta uma análise bem ponderada do sector bélico, os benefícios de uma política externa agressiva.
Por tudo isto, revela-se um carácter conflituoso da Globalização, como motor impulsionador de problemas de difícil solucionamento: temos o exemplo dos últimos anos do século XIX. Aconselha-se uma leitura de um qualquer livro sobre esse período.

GLOBALIZAÇÃO


O advento de um novo tempo é incompreensível sem a noção de globalização. Ela é um processo de liberalização, de esbatimento de burocracias e de redução das tarifas alfandegárias. Tem como finalidade a promoção da competitividade entre diferentes Estados, de forma a obrigar as sociedades a criar as condições mais vantajosas para o progresso material, para o desenvolvimento das forças produtivas e o revolucionamento das técnicas de produção. É sob uma antropologia optmista, de raiz liberal que este modelo se configura.
Mas este processo que é um afluxo, uma interacção complexa, só foi possível pela criação de tecnologias de comunicação e de transporte altamente eficientes e velozes. A democracia, a queda do Sovietismo, a acção do FMI e do OMC, organizações internacionais, foram peças angulares para o desencadeamento e aceleração deste fenómeno.
É a forma mais universal do Capitalismo. Talvez a sua última etapa tal qual o conhecemos. Daqui em diante nada voltará a ser, mesmo que aproximadamente, como antes.
No núcleo base desta estratégia está a ideia de um progresso quase elimitado da humanidade, do lucro, das tecnologias, das sociedades e do melhoramento das condições de vida dos povos menos desenvolvidas. Levar o progresso, desencadear uma última fase de ocidentalização, é o cerne que sustenta a globalização: aproximar culturalmente os povos é contribuir para a paz mundial.
Contudo, esta sucessão de direcções, com a sua axiologia sustentadora, esbate com diversas realidades, as quais impõem dificuldades e impasses: as especificidades regionais.
Ao tentar enquadrar a diversidade, a Globalização aglutina imensos elementos contraditórios será inevitável o emergir de diversos conflitos.
Com a desregulação dos mercados, fase importante para se tentar uma aproximada unificação do mercado em termos mundiais, criou-se um fluxo de especulação bolsista inimaginável. Nas bolsas se discutem acções de diversas empresas, se estipulam preços, se fazem enormes fortunas e se cria uma inflacção irreal. Isto contradiz claramente a segunda escola Monetarista, que elaborou o conceito de Expectativas Racionais.
Ao acreditar num Homo Oeconomicus, os monetaristas achavam possível aos sujeitos decisores económicos tomar medidas acertadas, o que impediria crises bolsistas ou económicas. Estariam em pé de igualdade perante o Estado, ao prever a evolução económica, obtendo a mesma dignidade que este último,e assim sendo, decredibilizando ou tornando ineficaz a política económica. Destas permissas deriva a igualdade e viabilidade da acção empresarial e a não necessidade de intervenção do Estado na economia. Tudo isto só poderia acontecer com excelentes e rápidos meios de comunicação, o que foi possibilitado com o computador e a internet.
Contudo, esta doutrina mesmo que aceite, revelou-se um fracasso: o mercado gerou irracionalidade na afectação dos recursos escassos, situações de ineficiência, gerando-se monopólios e a adulteração de informação. Por isso, se assiste a uma especulação excessiva. O nosso mundo actual vê a falência de um teoria essencial à sustentabilidade do processo globalizador.
A Globalização enfrenta igualmente a heterogeneidade de diferentes sociedades, o seu direito, e a especificidade do seu contexto social: isto gera enormes discrepâncias sociais, a democracia ainda não se consolidou por todo mundo, o cumprimentos dos direitos humanos é ainda uma aspiração de muitos povos, óbvio que isto está a gerar grandes desigualdades sociais, usura, enriquecimento abismal, degradação do meio ambiente e da qualidade de vida, destruição de classes médias, o que poderá inviabilizar este processo revolucionário, por precepitação e optimismo desfasado das condições objectivas da realidade.
Outra consequência gravosa, são as deslocalizações de empresas: a decadência do Estado-Nação está intimamente associado com esta questão. O facto das empresas possuírem uma liberdade de movimento, sem o devido controlo do Estado, dá-lhes flexibilidade para agir por sua livre iniciativa, impondo à sociedade a alteração e recuo em direitos dados como adquiridos. O que quer dizer é que trabalhamos para as empresas, sobretudo, aceitando os seus lucros desproporcionais, sem os taxar correctamente, e recuando numa acertada justiça correctiva. O Estado reduz o seu papel, limita-se à mínima acção que se considera essencial, aceita lucros abismais, e cruza os braços diante de graves atentados aos direitos humanos.
Todavia, isto não tem sido tão linear como se pensou: os diferentes países tentam colocar outro tipo de barreiras, arranjam apoios para as suas empresas, condições favoráveis, em desfavor da população trabalhadora, criando contradicções, e não respeitando as sagradas leis naturais do mercado. Como sempre, os economias não sustentaram as suas teorias numa sólida visão da sociedade e da humanidade em geral.
Por fim, e não querendo estender-me demasiado, há que realçar que o Estado-Nação, paradigma clássico da organização social, vê-se colocado perante uma posição frustrante: é incapaz de resolver solitariamente os problemas que advêm do processo de mundialização. Isto é, é obrigado a dialogar com outros países para solucionar diversas questões como o tráfico de mulheres, drogas, armas, etc. Assim, há uma limitação da sua soberania e auto-suficiência, pondo-se em causa certas concepções teóricas, as quais têm perecido aguniantemente pelas deslocações em massa de pessoas de diversos países, num novo grande movimento migratório na nossa História.

HUMANIDADE


Abre-se um capítulo novo na nossa História colectiva. O tempo é de angústia, indecisão, evasão, materialismo, e despersonalização. Parece que tudo está fixado num ponto do tempo, momentâneo, boémio, endoidecedor. Sem nos apercebermos, forjamos um novo capítulo do nosso percurso, sem noção valorativa, sem sequer parar e cruzar os factos que nos rodeiam. Definir o nosso caminho, traçar em linhas gerais, olhar para o passado recente, e vislumbrar possibilidades de futuro, enlaçado numa estratégia vivificada por valores, tem a sua complexidade, a sua limitação e dificuldade. Talvez um dia o nosso esforço seja reconhecido, talvez um dia qualquer coisa se diga sobre nós na memória colectiva, por isso, tentaremos elucidar o nosso tempo, e clarificar o que no artigo anterior foi exposto, de forma tão vaga, robusta, violenta mas expressiva da arrebatação da nossa Era.
O modernismo terminou, abriu-se um ar Pós-Moderno. Com a implosão da União Soviética, com o desmembramento do bloco do leste, o mundo viu-se confrontado com um Unilateralismo prometedor, e com uma nova estratégia mundial: a globalização e o neoliberalismo. Os E.U.A. apresentaram-se como líderes de um novo tempo de prospriedade, impuseram os seus valores ao mundo, mesmo que violentamente, promoveram um modelo de organização civilizacional, deflagraram um novo tempo de Capitalismo, com alicerce na especulação, no fundo, propuseram-se para moldar o mundo segundo a sua lógica, numa Era de fim da História, onde o antigo socialismo se assemelhava a um velha decrépita.
A sociedade, vendo-se vazia, acreditou nesta nova profecia, lançou-se na desregulação, na privatização, na liberalização, esperando daí obter mais prospriedade, mais riqueza, maiores oportunidades, esbatimento das desigualdades sociais. O Estado Social começou a ser visto como uma orientação pesada e negativa para a sociedade na totalidade, foi exigido reformas, foi descredibilizado o sector público, exigiu-se o redimensionamento do Estado na economia, no fundo, o poder político foi enclausurado pela lógica de enriquecimento individual, forma mais eficiente de promover o sucesso da causa social, pelo menos assim entendidam alguns. A ideia de Adam Smith reapareceu firmemente, e teve a promoção do Monetarismo, corrente de pensamento económico que se alia facilmente ao Liberalismo. O velho mundo, o erguido desde o século XIX começou a desmembrar-se, surgiu o Pós-Modernismo, a sociedade verdadeiramente do século XX.
No plano cultural, confirmou-se a supremacia de uma cultura ligada a individualidades, com o valor do seu nome, com o peso da sua popularidade sobre o valor realmente inovador ou até da interpretação da obra: uma espécie de anonimato artístico perante o valor do nonimato pessoal. A monotonia, o facilitismo, a produção electrónica e massificada, o monopolismo, surgem como espaços difusores da cultura, a Pop Arte impõem-se por todo o lado, ligada a novas tecnologia, ao mundo da cibernética, a técnica revoluciona e rompe com um conceito tradicional de arte. Expansão acelerada da alfabetização, democratização, capitalização e especulação monetária da cultura, enfim, um processo muito subtil revoluciona igualmente este ramo de actividade.
O ensino encara também um novo tempo: depois do domínio público, de um ensino idealizado para a formação cultural do indivíduo, como motor de aperfeiçoamento do ser, o factor económico arrebata-se, e a via tecnificante, a superespecialização, e a cada vez mais acentuada divisão científica, estreita o horizonte humano: esta alteração é normalmente explicada pela grade acumulação de conhecimentos. A universidade massifica-se, o ensino privada ganha mais defensores e mais folgo, a Era da liberdade ofusca tudo e todos, o indivíduo tem direito à busca egoísta dos seus interesses, desejos e projectos. A sociedade é a soma de partículas atómicas.
A sociedade torna-se mais difícil de apreender. A Globalização recruta diversos meios, esbate e uniformiza, gera contradições complexas, o mundo vê-se numa torrente de materialismo e ilusão de eternidade alienante. O esforço aglutinador das empresas, com todo o marketing que utilizam por meio dos mass média influencia as opiniões, lidera gostos, modas, imputa condutas, cria ondas de sensibilidade, agita consciências, manipula almas. As antigas classes socais deixam de fazer sentido num mundo tão diversificado, e o critério da posição diante dos meios de produção ou da riqueza ou importância política, é já excessivamente simplificador da riqueza da realidade social, inadequado para o esforço de intelectualização exigível no processo de agrupamento conceptual. Por outro lado, o impacto das novas formas de sociabilidade, das novas formas de comunicação, geram uma forma de sociabilização demasiada despersonalizada, afastada, sem contacto directo com as emoções humanas. É evidente que ainda está para se compreender os efeitos sobre a estrutura humana destas novas tecnologias, em vários pontos de vista.
Psicologicamente, o mundo acelera-se, é mais rápido viajar, o mundo parece uma "Aldeia Global", caem fronteiras, recriam-se novas formas de ser, tudo parece demasiado rápido, e a cultura urbana agiganta-se. As referências são outras, são diversas, todavia, a sociedade de consumo esforça-se para uniformizar, por aglutinar, por incorporar: quem não preenche os critérios vê-se desenraizado, afastado, segregado. Acompanhar as tendências é ser parte do mundo, quem fica para trás sente-se afastado do mundo actual. A imagem começa a ser o elemento mais apreciado nas nossas opções sociais, as marcas de roupa, os telemóveis, os símbolos materiais são de importância sobrevalorizada. Toda a gente pensa diferente, mas igual.
Demograficamente, o mundo sente-se a abarrotar. Declínio da natalidade na Europa e restante mundo desenvolvido, pujança no tradicional terceiro mundo, tudo se subtiliza!
Os modelos de gestão tradicionais deixam de ser eficientes na resposta a problemas, as ideologias tornam-se obsoletas, o apolitismo firma-se como postura sócio-política, a impaciência, a utilitarização das relações, o hedonismo fugaz, o excesso, a loucura, a falta de percurso moral, a degradação da qualidade da personalidade, tudo expele um ar de indiferença, fracasso, frustração e pesar.
No plano criminal, perpetuam-se relações de poder indignas, a indigência, a toxicodependência, o HIV, a expansão da criminalidade violenta, do tráfico de drogas e de mulheres e crianças, aliado a um terrorismo oculto e violentíssimo, colocam de novo o mundo numa guerra surda, colocam as sociedades amedrontadas, gerando contradições, xenofonia e racismo.
Em suma, é este em traços grosseiros o mundo que hoje experimentamos. Não quero de todo enunciar extenuantemente o que se vive, sente-se, imagina-se ou ocorre ou ocorreu. Isto não é um ensaio, é uma pequena reflexão. Pretendemos explorar ligeiramente alguns problemas, e enunciar algumas repostas para eles. Esperamos que seja do agrado dos nossos leitores.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

MARCHA FÚNEBRE


O que tem evoluído na humanidade nestes lamacentos anos??? O refinamento da ocultação, a lebre da miséria, o despedaçamento do ideal, e a Loucura, Deusa por excelência da mente humana.

O estado de degradação material é eminente, o país sobreendividado, mas os cafés a chusmar, a arrebentar pelas costuras, pessoas a berrar, pessoas a tagarelar, seios bem morenados, e os típicos sorrisos de engate: afinal não é isto viver???

Em cada espaço, reina um ar superior de parte daquelas "ratas" de esgoto que se acham bem húmidas e superiores. Pensam-se grandes, de facto, o seu HI5 tem imensa gente adicionada, muitos corpos esbeltos, muitas verdades, mas sem grande emoção sentimental nutrida: é puramente objectal!!!

Todavia, a grandeza existe, continua enlaçada nos seus cabelos replandescentes, com nacos de uma moral burguesa, falsa, mentirosa, ilusória: tudo não passa mais de um espectáculo gorducho, suado e barato. Se isso é a grandeza do ser humano, mais parece um cenário desprovido de significado elevado, gosto requintado, que de plebeu, de imbecilidade e animalidade tem mais do que de Humano, aquele que concebemos como o que nos distingue de todos os outros...

Mas a vida continua, segue sempre um rumo de estagnação, quantificam-se os ganhos materiais, diminuem-se riquezas, rodopia a energia da sociedade, e um dia a consciência toca, como um sino, com uma ferida, e um pedaço de sangue... há que costurar na vida para o além...

Em tudo isto saborio qualquer coisa, noto e acresço uma repugnância, um sentimento de descrédito, uma sensação de náusea... sempre pensei que fosse possível mais qualquer coisa, que houvesse evolução... acho que me enganei, a utilidade marginal é a medida da relação social, a axiologia não reina pela imaginação. Neste enredo de vacaria, de putaria, de punheta, só o ávido, o animalesco, o quotidiano, o inútil e que tenha pouca inteligência ganha... a plebe ganha em ideal, e perde grandeza...Será??? Tautológico, sim, deveras, porque a vida é mesmo isso....

A praia, os cafés, as conversas, tanto de teatral, tanto de verdadeiramente falso, que só fica o gosto a sexo, podre, violento, analissimamente bruto, com muita cerveja à mistura, muita falsidade, porquitude, e um santo no altar a lacrimejar, na penumbra...

Há um tempo em que tudo o que era parte integrante da nossa casa deixa de ter significado, deixa de simbolizar, deixa de idealizar, e a adulteração revira tudo ao avesso, o sol põem-se, e o alheamento começa a subverter ou a ligar??? A burrice é feita para a canalhice, os quantos que rosnam são gozados, pervertidos, apontados, depois "iremos ficar sozinhos", desagasalhados... Como se viver entre a Merda desse algum prazer... Como se viver entre os meandros da podridão não desse mais de revolta do que de contentamento... Pelo menos, dá-nos energia para galhofar, para cismar e desacreditar esses seres que reinam pelos vestidos de ouro, que espelham uma Cona bem perfumada, rapadinha, bem torneada, para ser conhecida, bem escavada, bem trabalhada, todos ganham, e sem preservativos, Reproduzimos o HIV, coitadinho, também tem direito a viver...

Conviver é sinónimo de representar, de mentira, de cordialidade, de simpatia, de abanar a cabecita, e de histerismo envolto numa capa de amizade. No fundo vibra uma vontade de carnivorar, de Trincar, ferver de Espuma, agitar o mar, o quadril, fornicar numa expressão mais masculina... Hum, que bom, "Ontem cavalguei com o período", foi imensamente bom talvez, mais aquele azedume de matéria orgânica em degradação... Hum, nada que se compare a um bom gelado diante da praia, de uma frescura de mar, e aquelas mamas que por vezes agitam o Falo, pela agilidade do seu saltitar, a marquita a contornar estridentemente e o poder de sedução dessas bóias de sangue sexual.

Enfim, vejo mais simpatia em pequenos animais do que na miséria que compõe o estrume da personalidade de certos mestres na Arte de sedução. Apetece até dizer que a masturbação é bem acolhida em imaginar esses seres num passeio, a sua voz, o seu galope, o seu rabo com celulite, rabos que defecam, e pensar num acto sexual, depois de uma dessas sabedoras ter saído da retrete. Somos divinos, somos uma praça de musicalidade, sempre cheia de festarolas, de orgias, de cânticos e muitos imberbes anjinhos. Só cumprimos os desígnios animalescos, pois é disso que somos feitos, e a nossa alma é uma extensão de matéria orgânica expelida numa noite luarenta de penetração e beita a escorrer com um antro de microorganismo, com restos de urina nos lábios, e traseiramente, o nosso grande adjectivo...

Pensar, agir, tecer um véu, crer, coisas desprovidas de sentido no nosso século constitucional, onde os anjos universitários abocanham para pautar uma nota razoável. É essa a nossa linha de felicidade, de lux, de tagarelice, de desejo, afinal, somos destinados à suprema felicidade. Para quê sofrer??? "Que Horror!!!" dirá a besta pensante.

A formação dá-se de uma maneira: odiar como o trabalho o sofrimento. Por isso, tanta comoção varre os " sensíveis" corações, tanto brilho nas lágrimas, tanto odor a gana de justiça, contudo, breve, leve, teatral: o prazo de validade é escasso, uns quantos pedaços de "segundos".

Os opostos, os iguais, os ridículos, eles e elas, vermes, insanos, cruéis, indolentes, desprezadores da suprema ideacção humana, corriqueiros no péssimo significado, sentimentais, que depois apontam o dedo a tudo o que é superior à putrefacção humana, de sangue escamado, sem direçcão, sem alto norte, e só umas quantas quecas para viver, muita roupa, praia, e comer regaladamente. De facto, o homem foi feito para a mulher, e essa para ele.

Há muita boa nata na humanidade, mas ela vive nas entranhas dessa falsificação e adulteração, desolada, desválida da sua grandeza. Devemos lutar agressivamente contra a podridão, e dar a justa moeda de troca ao que é elevado e angelical!!! Assim se faça Luz!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

AR FRESCO

Este blogue anuncia que o seu autor vai escrever outro blogue. Não deixará de escrevinhar por este espaço, numa linguagem mais acessível, galhofeira, escorreita, e versando uma grande multiplicidade de temas.
Todavia, como tem uma apetência por um outro tipo de escrita, ainda mais rosnada, cachorreira, esganiçada, vai empreender para os amantes de uma prosa mais artística, um tipo de artigos mais elaborados, mais atafugados, com um véu de filosofia.
Divulgar-se-á porteriormente o link do respectivo blogue.

JS SUMAMENTE INTELIGENTE!!!


O país está ao rubro. Sim, e veja-se pelas prioridades da JS, o órgão por excelência dos jovens, da sua consciência vibrante e do seu dom para a atenção política. Não chega a eloquência do " Debate dos Partidos", não da Nação, porque essa está tão farta de rotineiras politiquices, que aprecia mais os banhos solares e a radiação que o cancro político. É caso para se dizer que nem com uma sova, nem com umas estocadas de bengala isto deverá endireitar, por enquanto é claro. Sejamos optimista, com a negrura acalmante de um mitigado pessimismo, assim seja, e talvez vejamos um pouco de praia na Assembleia.

Penso que a JS tomou a decisão acertada, discutir o problema dos casamentos de Homossexuais, para a agenda eleitoral talvez tenha o seu proveito!!! Bem, façamos um contexto breve: o país lodaça na revisão do crescimento económico para 2008, as reformas são consideradas insuficientes, o governo tem dado sinais de quebra de rigidez, o PSI 20 regista acentuadas quedas, as bolsas europeias seguem a mesma tendência, suscita-se a possibilidade de recessão em diversas economias, o Tratado de Lisboa está num impasse, o endividamento dos portugueses é preocupante, a General Motors está a ter prejuízo, pensa em despedir uns quantos empregados, há sinais de agravamento da situação quente do Afeganistão, entre tantas outras coisas imensamente preocupantes que não irei colocar, e o que faz a JS perante isto tudo, sobretudo para o alheamento político dos jovens, o descrédito da arte de governação, de administração, de consciencialização e projecção de estratégias para o futuro??? Bem, decide discutir a questão dos casamentos entre Homossexuais.

Acho que não deixa de ser um tema relevante para as sociedades hodiernas, o da Homossexualidade, e a forma como a generalidade da sociedade encara este tipo de comportamentos considerados desviantes por tantos e tantos às correntes. Mas neste momento, em que urge firmeza, esclarecimento, discussão, delineamentos de novos modelos que substituam o actual, de gestão de conflitos, de problemas de crescimento económico, etc. Também, não é de esperar outra coisa, na minha provinciana territa, raramente vejo alguma coisa desta organização que não mais espelha que uma maioria tachista que depois irá ter influência no Partido, e de pensar que estes jovens um dia nos irão governar, dá vontade de escarnecer com um manto de seda, vendar os olhos, e caminhar alegremente para o abismo oceânico!!!

segunda-feira, 7 de julho de 2008


O último trecho tem algumas ambiguidades. Se repararem, utilizo a ambiguidade, na finalidade de criar ao leitor consciente, algumas dúvidas, favorecendo o processo de consciencialização, de reflexão e autonomização. Este é o pressuposto da minha iniciativa, e penso ser um valor a ter em conta.

Quanto a uma necessidade que senti de desambiguação do anterior trecho, acho obrigacional apresentar os valores, as normas que penso serem fundamentais para esclarecer algumas lacunas que tenham ficado em qualquer leitor, e assim fornecer um contexto mais firme para o pensar-o-texto correctamente.

A minha experiência individual tem firmado um senso em relação ao nosso destino. Cada ser humano tem a liberdade de deleitar-se num projecto individual, sem intromissão de outros, ou sem prejudicar os outros. Nesta direcção, acho plausível aceitar-se um valor de tolerância pelos outros, desde que aceitem normas como o respeito perante o seu semelhante.

É impensável relevar a questão da homossexualidade, acho que é problema que não se deve colocar, porque não se trata de qualquer problema, é uma opção individual, que pode ter as suas explicações, mas não é o essencial para a concretização existencial. Há tantos problemas, tantas injustiças, tanta dor, e infligir mais dor, mais discriminação, numa sociedade dita pluralista, é tão mesquito, tão reduzido, que não tem qualquer fundo que a intolerância e a falta de permissão pela diferença. Num mundo de problemas inimagináveis, onde o caminho individual é já problema, para quê pensarmos numa opção sexual quando em nada nos atinge,torna-se problema quando ela é um direito??? Para quê colocar o que é pouco significativo acima do que é relevantíssimo??? Só mentes pouco desenvolvidas o podem fazer, e quando falo desenvolvidas, falo moralmente. Cada um deve pautar a sua conduta pelo que ache necessário para o mínimo de felicidade satisfatória, devemos respeitar, e elogiar a coragem em forjar salutarmente uma personalidade.

Mas teimamos muitas vezes em nos arrojarmos de um saber dogmático, incompreensivo, em nos mostrarmos socialmente pela rudeza, e sermos os donos de um microcosmos. Que baixeza, que universo estreito, a vida é tão breve, se nos preocupássemos em sermos inovadores, criativos, e deixássemos de lado as energias reactivas que por vezes nos dominam, o negativismo, o contingente,o inútil, a negrura da alma, faríamos melhor.

sábado, 5 de julho de 2008

HOMOSSEXUALIDADE ANORMALIDADE???


Este texto trata-se de uma reposta problematizante a uma questão abordada pelo meu caro colega Tiago, no Bombar diante das meninas. Gostaria de referenciar que fui um tanto grosseiro na abordagem que estabeleci nesse nocturno estabelecimento de Espinho, fica aqui o meu pedido de desculpas.

A questão tratada levemente, sem o mínimo de profundidade pelo orador detractor desta opção sexual, senhor Tiago, da Homossexualidade fundava-se nos seguintes argumentos: a Homossexualidade é uma anormalidade, que a pernoca boa de uma mulher é que é , que não sei quê de sexo para ali ou acolá. O leitor rapidamente repara que não havia o mínimo de racionalidade, e que era uma tese sustentada por plenos obsoletos argumentos, ao género de muitos dos nossos esmerados estudantes académicos. Por não tolerar a discriminação, o conservadorismo, o grotesquismo, irei apresentar alguns contra-argumentos, e reduzindo ad absurdum as premissas do meu excelente colega, espero ser o minimamente claro.

O fundamento da anormalidade é aparentemente certo, se não devidamente analisado. Homossexual etimologicamente quer dizer o que ,aproximadamente, tem atracção pelo seu semelhante, o que gosta do seu semelhante, ou seja, de uma pessoa que é do mesmo sexo. Ora bem, anormalidade deve ter por base uma média matematicamente bem analisada, com uma amostra minimamente credível e representativa de todos os estratos sociais, dos diversos sexos, das diferentes culturas. Deve analisar as opções sexuais, deve conter análises hormonais na busca da definição de uma normalidade, traços de uma personalidade, uma total descodificação genética, um estudo em volta da questão do prazer. Além de todas as limitações que tal tratamento carece para generalizar, há a somar as dificuldade de quantificação de uma tal amostra.

Depois disso, deveria abordar o prazer, a busca do prazer, e fazer um qualquer aprofundamento histórico-cultural. Por exemplo, se um Homossexual ou Bissexual tem relações com um semelhante, tem necessariamente que ter prazer, e se tem prazer, e o prazer é notoriamente humano, onde está o que o difere da normalidade??? Por outro lado, definir normalidade perante anormalidade, é só perceptível na lógica do Tiago através do totalitarismo da maioria, da reprodução, do que a natureza estabeleceu, com o seu cunho criacionista. I.e, misturam-se duas doutrinas um tanto opostas nisto, fruto de uma inconsciência anormal, isso sim. Ora bem, se o prazer no sexo entre diferentes pode ser utilizado e reforçado como um critério de orientação e conduta sexual, já com os homossexuais não, porque é anti-natural. Esquece-se pois que existe uma tribo de gorilas, penso eu, que utiliza relações homossexuais para unir o grupo emocionalmente, como factor de vínculo social. Por isso, vê-se desta forma como é natural a Homossexualidade, mesmo que sendo, e isto pode-se considerar, um comportamento desviante à regra, mas não de todo anormal na nossa existência.

Quanto ao que nos diz a História, desde muito cedo as relações Homossexuais surgiram na nossa teia de conduta. Tanto mulheres em Roma como na Grécia, homens e escravos praticavam sem pudor actos sexuais. Era um fenómeno social elogiado, aceite, sem o preconceito que lentamente o Catolicismo introduziu na nossa sociedade. Lembre-se a exemplo o Sanatusconsulta De Bachanalibus de 186 A C. Este parecer do Senado Romano contraditou a expansão desmesurada de orgias pela cidade, tentando-se lutar contra a promiscuidade.

Noutra óptica mais rígida, podemos ver que organicamente definir normalidade passaria por um conhecimento profundo da genética e da média hormonal, em termos rigorosos, com a definição de factores que determinam a conduta. Sabe-se por isso, e qualquer aluno de ciências saberá da dificuldade metodológica em se definir uma normalidade, mesmo do ponto de vista Evolucionista, há uma riqueza de readaptações da espécie que ultrapassa em muito o que poderemos imaginar, sobretudo no turbilhão actual da degradação ambiental e do aumento da miscigenação, da Globalização, etc. Fica claro que qualquer afirmação dogmaticamente estabelecida será mais fruto de preconceitos do que de uma busca axiológica pela verdade. Por fim, é de notar que o objectivo deontológico da ciência é lutar contra o preconceito, e que assumir-se dogmas e preconceitos, sem tentar averiguar minimamente, sem utilizar a falsificabilidade de Popper é tão anti-científico, que escandaliza qualquer ser com o mínimo de bom-senso.

No sentido religioso, há outros tópicos a focar. O nosso caríssimo amigo diz-se Católico. Bem, o Catolicismo oficialmente tem uma dada doutrina, uma dada visão do mundo, das coisas, dogmaticamente leccionada. Mas antes disso, vincula valores como a igualdade, a fraternidade, a compreensão, a tolerância, i.e, um conjunto de valores positivos que densamente existem no Cristianismo. Como a Bíblia assenta numa gradual construção, de Mitos diversos, de doutrinários, é de difícil consenso e até em termos hermenêuticos, de interpretação, existindo diversas dúvidas. Contudo, para simplificar, fixemos os valores anteriormente apontados. Penso que ninguém, pelo menos Católico, poderá pelo menos teoricamente os contrariar. Coloco a seguinte questão, como pode um digno católico negar estes valores, o respeito à diferença, a igualdade, a compreensão, e roncar tanto com a barriga ao ponto de ser preconceituosamente discriminatório??? São uma alta negação de valores fundamentais!!! Sempre pode recorrer a uma retórica inicialmente cristã, nos primórdios da institucionalização efectiva do cristianismo, que isso são comportamentos pagãos. Talvez resida aí algo de possivelmente factual para explicar a aversão Católica à Homossexualidade e supostamente a tudo o que não é natural, esquecendo-se de que o prazer é a coisa mais natural do mundo, e que todos nós, primeiramente, somos animais.
Para findar, é necessário referir que o Lesbiscismo provavelmente não será digno de crítica, visto o pressuposto do nosso querido Tiago ser um leve machismo, rude e grotesco, ao género do Zé Camarinha. Isto concerteza não será redutível à anormalidade, vendo-se por aí o juízo de valor claramente egoísta, sem o mínimo de racionalidade, antes produto de uma cultura diminuta da dignidade da pessoa humana. Espero ter sido claro na exposição, é um tema controvertido, mas haja decência e racionalidade na reflexão!!!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

EMPOBRECIMENTO SEM CAUSA


Parecem animadores os resultados educacionais no nosso pequeno país. Parece que o actual executivo está a conseguir efectivar a Revolução da Educação. É só falar com um aluno do décimo segundo ano que observamos o potencial crítico-argumentativo, a argúcia do raciocínio e as competências analíticas para nos surpreendermos com o génio que está a produzir-se por cá.
Com a complexidade crescente que o sistema e os seus subsistemas emergentes e reorganizados através da Globalização, podemos reparar que o abrandamento da exigência educacional é um fenómeno de tudo necessário para o reforço dos nossos recursos humanos no mercado global. Assim, conseguiremos primar pela capacidade atractiva educacional e captar fundos de investimento externo. E para reforçar a argumentação, há que notar-se que assim os governos terão mais facilidade em administrar uma chusma de lesmas, e saíremos todos felizes deste processo Simplex que o país vive.
Promoção de mediocridade, exaltação do Ego, desautonomização do processo educativo, desleixamento avaliativo, congruência de notas, não prejudicação dos alunos, e o reinado das Estatísticas. Viva ao Portugal Impensante!!!

NEBLINA NO QUARTO DA MADRUGADA


Encontramo-nos, e penso que fundamental é, num tempo que urge responder com a bravura juvenil. A desilusão é o palco onde actuam certas mentes elevadas pelo grau de moralidade que as conduz, mas que a sociedade teima em não reconhecer verdadeiramente o seu mérito. O materialismo oco, o individualismo bafiento, o utilitarismo sócio-relacional, são a axiologia dominante, mesmo que custe a admitir. Livros de auto-ajuda espraiam-se na pachorrice dos espíritos secos, sem o diamante incorpóreo que os alimente devidamente. Acho que é sinal que algo tem de mudar, e a sociedade não se podem alhear disso, não podem continuar a esconder o embaraço diante destas questões, não podem dissolver-se na cultura corporal e da fugacidade, têm de operar uma transformação, mas sim conscientemente, com o sentimento ponderado, e um quê de continência irracional, assim seja o nosso futuro, e custa demasiado em crer verdadeiramente que se concretizará!!!

Almas como a de Cesário Verde, personificam um ideal humano, humilde, com um quê de materialismo, mas uma elevação espiritual que custa a crer inicialmente. A cidade não é só o espaço de matéria, é um local de uma imaginação transbordante, mesmo que conduzida pelas vielas da agrura. A sua formação, o pouco reconhecimento a que foi sujeite, o anonimato, é sinal bem patológico do pouco valor que por cá se atribui aos génios de real valor. Só o que por vezes vive no academismo é que possui o louro existencial do valor, mas que no futuro, só será uma baça sombra do culto divinal a que foi sujeite durante a sua breve existência.

Outro nome a citar, e que hoje é objecto de um desmesurado culto, o qual às vezes me transmite um opaco conhecimento do poeta, é o de Fernando Pessoa. É de longe um nome que nos elevou à categoria de Nação realmente criativa, com altos pelouros na sonância do Modernismo.

Agora, acho correcto deixar as seguintes questões: porque é que tudo o que é bom deixa sempre durante a vida uma coisa desconhecida, e não vê o mérito reconhecido por vezes na justeza da medida do seu trabalho??? Porque nos aprisionamos no modelo do Estatuto, deixando-nos a correr no mais irracional e simplista cárcere??? Será difícil dar valor efectivo a essas pessoas, ou é a nossa estupidez tacanha que nos suspende o acto de reconhecimento real???

Penso simbolizar algo com estes dois nomes, cabe agora ao leitor interpretar melhor e pensar no que transmiti, e relacionar com o espírito que cria o contexto em que escrevinho hoje.

CONFISSÕES


A abrir um novo tempo de escrita pela Aurora, acho importante abordar as mais mesquinhas quotidianices, as mais casmurras trivialices, as mais arrastadas humanices. Por isso, semanalmente, e conforme o tempo a bater no fundo da alma, abordarei o que torna o nosso tempo "Humano Demasiado Humano".
Esta semana estive em Coimbra. Um pachorrento sol batia misturado com uma leve película de neblina na nossa pesada mente. Senti, no grupo que me inseria, um grande desgosto, uma secura desiludida, um sem grande noção do que atravessa os nossos queixumes. Parece que as expectativas depositadas durante uma certa efervescência juvenil implodiram pelo efeito perverso e dispersante da existência. O que é certo é que o odor fedorento da desilusão toma maternalmente os nossos pensamentos, e as conversas evadem-se em reflexões angustiantes, com um olhar humedecido de humanidade e ternura.
Perguntar-se-ão pela razão de tal abatimento moral. É fácil, somos treinados docilmente para crer num futuro, para apartar ideias, e mesmo sabendo que a realidade é como um pedaço de carne, treinamos o ritual da esperança, e no provir projectamos a nossa actividade. Mas o tempo vai passando, e sempre antevendo o rumo das coisas, tentamos confrontar a maré, não encontrando mais que fel num prato de sopa.
A falta de estímulo à criatividade, a falta de cooperação no processo de ressocialização, o carácter impositivo do que é leccionado, um certo fedor a bolor, um distanciamento da energia que maritimamente agita o mundo, um nevoeiro pegajoso, afastado, alienante, uma escassez de inteligência pelos nossos conterrâneos, a desmotivação e um hálito a boémia nas esquinas, são algumas das razões que nos estatelam na areia fria do chão, e nos tolhem de um grito de cansaço e rancor perante a estagnação de certos meios do nosso quadrante intelectual.
Mas como nem tudo pode sucumbir perante o marasmo que cobre as neblinas de alguns meios, é importante notar que algo também se vislumbra no horizonte, um certo dourado de Verão, um fresco ar de humidade no nosso corpo, uma agitação fresca do bosque, qualquer coisa que renova a nossa alma, e nos faz buscar novamente as ansiedades juvenis. Esperemos é que algo se transforme e que a luta valha a pena. Como disse Fernando Pessoa" Tudo vale a pena se a alma não é pequena", e penso que tenha razão, há que continuar a crer.



Este escrito é dedicado a todos os meus companheiros que desistiram do curso de Direito da Universidade de Coimbra, especialmente a uma alma que me comove pelo humanismo esplendoroso, e pelo coração corajoso, Vítor Vilaça.


Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.
Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida. Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objectividade ao prazer subjectivo da leitura.
Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde. Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.