quinta-feira, 24 de julho de 2008

HUMANIDADE


Abre-se um capítulo novo na nossa História colectiva. O tempo é de angústia, indecisão, evasão, materialismo, e despersonalização. Parece que tudo está fixado num ponto do tempo, momentâneo, boémio, endoidecedor. Sem nos apercebermos, forjamos um novo capítulo do nosso percurso, sem noção valorativa, sem sequer parar e cruzar os factos que nos rodeiam. Definir o nosso caminho, traçar em linhas gerais, olhar para o passado recente, e vislumbrar possibilidades de futuro, enlaçado numa estratégia vivificada por valores, tem a sua complexidade, a sua limitação e dificuldade. Talvez um dia o nosso esforço seja reconhecido, talvez um dia qualquer coisa se diga sobre nós na memória colectiva, por isso, tentaremos elucidar o nosso tempo, e clarificar o que no artigo anterior foi exposto, de forma tão vaga, robusta, violenta mas expressiva da arrebatação da nossa Era.
O modernismo terminou, abriu-se um ar Pós-Moderno. Com a implosão da União Soviética, com o desmembramento do bloco do leste, o mundo viu-se confrontado com um Unilateralismo prometedor, e com uma nova estratégia mundial: a globalização e o neoliberalismo. Os E.U.A. apresentaram-se como líderes de um novo tempo de prospriedade, impuseram os seus valores ao mundo, mesmo que violentamente, promoveram um modelo de organização civilizacional, deflagraram um novo tempo de Capitalismo, com alicerce na especulação, no fundo, propuseram-se para moldar o mundo segundo a sua lógica, numa Era de fim da História, onde o antigo socialismo se assemelhava a um velha decrépita.
A sociedade, vendo-se vazia, acreditou nesta nova profecia, lançou-se na desregulação, na privatização, na liberalização, esperando daí obter mais prospriedade, mais riqueza, maiores oportunidades, esbatimento das desigualdades sociais. O Estado Social começou a ser visto como uma orientação pesada e negativa para a sociedade na totalidade, foi exigido reformas, foi descredibilizado o sector público, exigiu-se o redimensionamento do Estado na economia, no fundo, o poder político foi enclausurado pela lógica de enriquecimento individual, forma mais eficiente de promover o sucesso da causa social, pelo menos assim entendidam alguns. A ideia de Adam Smith reapareceu firmemente, e teve a promoção do Monetarismo, corrente de pensamento económico que se alia facilmente ao Liberalismo. O velho mundo, o erguido desde o século XIX começou a desmembrar-se, surgiu o Pós-Modernismo, a sociedade verdadeiramente do século XX.
No plano cultural, confirmou-se a supremacia de uma cultura ligada a individualidades, com o valor do seu nome, com o peso da sua popularidade sobre o valor realmente inovador ou até da interpretação da obra: uma espécie de anonimato artístico perante o valor do nonimato pessoal. A monotonia, o facilitismo, a produção electrónica e massificada, o monopolismo, surgem como espaços difusores da cultura, a Pop Arte impõem-se por todo o lado, ligada a novas tecnologia, ao mundo da cibernética, a técnica revoluciona e rompe com um conceito tradicional de arte. Expansão acelerada da alfabetização, democratização, capitalização e especulação monetária da cultura, enfim, um processo muito subtil revoluciona igualmente este ramo de actividade.
O ensino encara também um novo tempo: depois do domínio público, de um ensino idealizado para a formação cultural do indivíduo, como motor de aperfeiçoamento do ser, o factor económico arrebata-se, e a via tecnificante, a superespecialização, e a cada vez mais acentuada divisão científica, estreita o horizonte humano: esta alteração é normalmente explicada pela grade acumulação de conhecimentos. A universidade massifica-se, o ensino privada ganha mais defensores e mais folgo, a Era da liberdade ofusca tudo e todos, o indivíduo tem direito à busca egoísta dos seus interesses, desejos e projectos. A sociedade é a soma de partículas atómicas.
A sociedade torna-se mais difícil de apreender. A Globalização recruta diversos meios, esbate e uniformiza, gera contradições complexas, o mundo vê-se numa torrente de materialismo e ilusão de eternidade alienante. O esforço aglutinador das empresas, com todo o marketing que utilizam por meio dos mass média influencia as opiniões, lidera gostos, modas, imputa condutas, cria ondas de sensibilidade, agita consciências, manipula almas. As antigas classes socais deixam de fazer sentido num mundo tão diversificado, e o critério da posição diante dos meios de produção ou da riqueza ou importância política, é já excessivamente simplificador da riqueza da realidade social, inadequado para o esforço de intelectualização exigível no processo de agrupamento conceptual. Por outro lado, o impacto das novas formas de sociabilidade, das novas formas de comunicação, geram uma forma de sociabilização demasiada despersonalizada, afastada, sem contacto directo com as emoções humanas. É evidente que ainda está para se compreender os efeitos sobre a estrutura humana destas novas tecnologias, em vários pontos de vista.
Psicologicamente, o mundo acelera-se, é mais rápido viajar, o mundo parece uma "Aldeia Global", caem fronteiras, recriam-se novas formas de ser, tudo parece demasiado rápido, e a cultura urbana agiganta-se. As referências são outras, são diversas, todavia, a sociedade de consumo esforça-se para uniformizar, por aglutinar, por incorporar: quem não preenche os critérios vê-se desenraizado, afastado, segregado. Acompanhar as tendências é ser parte do mundo, quem fica para trás sente-se afastado do mundo actual. A imagem começa a ser o elemento mais apreciado nas nossas opções sociais, as marcas de roupa, os telemóveis, os símbolos materiais são de importância sobrevalorizada. Toda a gente pensa diferente, mas igual.
Demograficamente, o mundo sente-se a abarrotar. Declínio da natalidade na Europa e restante mundo desenvolvido, pujança no tradicional terceiro mundo, tudo se subtiliza!
Os modelos de gestão tradicionais deixam de ser eficientes na resposta a problemas, as ideologias tornam-se obsoletas, o apolitismo firma-se como postura sócio-política, a impaciência, a utilitarização das relações, o hedonismo fugaz, o excesso, a loucura, a falta de percurso moral, a degradação da qualidade da personalidade, tudo expele um ar de indiferença, fracasso, frustração e pesar.
No plano criminal, perpetuam-se relações de poder indignas, a indigência, a toxicodependência, o HIV, a expansão da criminalidade violenta, do tráfico de drogas e de mulheres e crianças, aliado a um terrorismo oculto e violentíssimo, colocam de novo o mundo numa guerra surda, colocam as sociedades amedrontadas, gerando contradições, xenofonia e racismo.
Em suma, é este em traços grosseiros o mundo que hoje experimentamos. Não quero de todo enunciar extenuantemente o que se vive, sente-se, imagina-se ou ocorre ou ocorreu. Isto não é um ensaio, é uma pequena reflexão. Pretendemos explorar ligeiramente alguns problemas, e enunciar algumas repostas para eles. Esperamos que seja do agrado dos nossos leitores.

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