Este texto trata-se de uma reposta problematizante a uma questão abordada pelo meu caro colega Tiago, no Bombar diante das meninas. Gostaria de referenciar que fui um tanto grosseiro na abordagem que estabeleci nesse nocturno estabelecimento de Espinho, fica aqui o meu pedido de desculpas.
A questão tratada levemente, sem o mínimo de profundidade pelo orador detractor desta opção sexual, senhor Tiago, da Homossexualidade fundava-se nos seguintes argumentos: a Homossexualidade é uma anormalidade, que a pernoca boa de uma mulher é que é , que não sei quê de sexo para ali ou acolá. O leitor rapidamente repara que não havia o mínimo de racionalidade, e que era uma tese sustentada por plenos obsoletos argumentos, ao género de muitos dos nossos esmerados estudantes académicos. Por não tolerar a discriminação, o conservadorismo, o grotesquismo, irei apresentar alguns contra-argumentos, e reduzindo ad absurdum as premissas do meu excelente colega, espero ser o minimamente claro.
O fundamento da anormalidade é aparentemente certo, se não devidamente analisado. Homossexual etimologicamente quer dizer o que ,aproximadamente, tem atracção pelo seu semelhante, o que gosta do seu semelhante, ou seja, de uma pessoa que é do mesmo sexo. Ora bem, anormalidade deve ter por base uma média matematicamente bem analisada, com uma amostra minimamente credível e representativa de todos os estratos sociais, dos diversos sexos, das diferentes culturas. Deve analisar as opções sexuais, deve conter análises hormonais na busca da definição de uma normalidade, traços de uma personalidade, uma total descodificação genética, um estudo em volta da questão do prazer. Além de todas as limitações que tal tratamento carece para generalizar, há a somar as dificuldade de quantificação de uma tal amostra.
Depois disso, deveria abordar o prazer, a busca do prazer, e fazer um qualquer aprofundamento histórico-cultural. Por exemplo, se um Homossexual ou Bissexual tem relações com um semelhante, tem necessariamente que ter prazer, e se tem prazer, e o prazer é notoriamente humano, onde está o que o difere da normalidade??? Por outro lado, definir normalidade perante anormalidade, é só perceptível na lógica do Tiago através do totalitarismo da maioria, da reprodução, do que a natureza estabeleceu, com o seu cunho criacionista. I.e, misturam-se duas doutrinas um tanto opostas nisto, fruto de uma inconsciência anormal, isso sim. Ora bem, se o prazer no sexo entre diferentes pode ser utilizado e reforçado como um critério de orientação e conduta sexual, já com os homossexuais não, porque é anti-natural. Esquece-se pois que existe uma tribo de gorilas, penso eu, que utiliza relações homossexuais para unir o grupo emocionalmente, como factor de vínculo social. Por isso, vê-se desta forma como é natural a Homossexualidade, mesmo que sendo, e isto pode-se considerar, um comportamento desviante à regra, mas não de todo anormal na nossa existência.
Quanto ao que nos diz a História, desde muito cedo as relações Homossexuais surgiram na nossa teia de conduta. Tanto mulheres em Roma como na Grécia, homens e escravos praticavam sem pudor actos sexuais. Era um fenómeno social elogiado, aceite, sem o preconceito que lentamente o Catolicismo introduziu na nossa sociedade. Lembre-se a exemplo o Sanatusconsulta De Bachanalibus de 186 A C. Este parecer do Senado Romano contraditou a expansão desmesurada de orgias pela cidade, tentando-se lutar contra a promiscuidade.
Noutra óptica mais rígida, podemos ver que organicamente definir normalidade passaria por um conhecimento profundo da genética e da média hormonal, em termos rigorosos, com a definição de factores que determinam a conduta. Sabe-se por isso, e qualquer aluno de ciências saberá da dificuldade metodológica em se definir uma normalidade, mesmo do ponto de vista Evolucionista, há uma riqueza de readaptações da espécie que ultrapassa em muito o que poderemos imaginar, sobretudo no turbilhão actual da degradação ambiental e do aumento da miscigenação, da Globalização, etc. Fica claro que qualquer afirmação dogmaticamente estabelecida será mais fruto de preconceitos do que de uma busca axiológica pela verdade. Por fim, é de notar que o objectivo deontológico da ciência é lutar contra o preconceito, e que assumir-se dogmas e preconceitos, sem tentar averiguar minimamente, sem utilizar a falsificabilidade de Popper é tão anti-científico, que escandaliza qualquer ser com o mínimo de bom-senso.
No sentido religioso, há outros tópicos a focar. O nosso caríssimo amigo diz-se Católico. Bem, o Catolicismo oficialmente tem uma dada doutrina, uma dada visão do mundo, das coisas, dogmaticamente leccionada. Mas antes disso, vincula valores como a igualdade, a fraternidade, a compreensão, a tolerância, i.e, um conjunto de valores positivos que densamente existem no Cristianismo. Como a Bíblia assenta numa gradual construção, de Mitos diversos, de doutrinários, é de difícil consenso e até em termos hermenêuticos, de interpretação, existindo diversas dúvidas. Contudo, para simplificar, fixemos os valores anteriormente apontados. Penso que ninguém, pelo menos Católico, poderá pelo menos teoricamente os contrariar. Coloco a seguinte questão, como pode um digno católico negar estes valores, o respeito à diferença, a igualdade, a compreensão, e roncar tanto com a barriga ao ponto de ser preconceituosamente discriminatório??? São uma alta negação de valores fundamentais!!! Sempre pode recorrer a uma retórica inicialmente cristã, nos primórdios da institucionalização efectiva do cristianismo, que isso são comportamentos pagãos. Talvez resida aí algo de possivelmente factual para explicar a aversão Católica à Homossexualidade e supostamente a tudo o que não é natural, esquecendo-se de que o prazer é a coisa mais natural do mundo, e que todos nós, primeiramente, somos animais.
Para findar, é necessário referir que o Lesbiscismo provavelmente não será digno de crítica, visto o pressuposto do nosso querido Tiago ser um leve machismo, rude e grotesco, ao género do Zé Camarinha. Isto concerteza não será redutível à anormalidade, vendo-se por aí o juízo de valor claramente egoísta, sem o mínimo de racionalidade, antes produto de uma cultura diminuta da dignidade da pessoa humana. Espero ter sido claro na exposição, é um tema controvertido, mas haja decência e racionalidade na reflexão!!!


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