sexta-feira, 4 de julho de 2008

CONFISSÕES


A abrir um novo tempo de escrita pela Aurora, acho importante abordar as mais mesquinhas quotidianices, as mais casmurras trivialices, as mais arrastadas humanices. Por isso, semanalmente, e conforme o tempo a bater no fundo da alma, abordarei o que torna o nosso tempo "Humano Demasiado Humano".
Esta semana estive em Coimbra. Um pachorrento sol batia misturado com uma leve película de neblina na nossa pesada mente. Senti, no grupo que me inseria, um grande desgosto, uma secura desiludida, um sem grande noção do que atravessa os nossos queixumes. Parece que as expectativas depositadas durante uma certa efervescência juvenil implodiram pelo efeito perverso e dispersante da existência. O que é certo é que o odor fedorento da desilusão toma maternalmente os nossos pensamentos, e as conversas evadem-se em reflexões angustiantes, com um olhar humedecido de humanidade e ternura.
Perguntar-se-ão pela razão de tal abatimento moral. É fácil, somos treinados docilmente para crer num futuro, para apartar ideias, e mesmo sabendo que a realidade é como um pedaço de carne, treinamos o ritual da esperança, e no provir projectamos a nossa actividade. Mas o tempo vai passando, e sempre antevendo o rumo das coisas, tentamos confrontar a maré, não encontrando mais que fel num prato de sopa.
A falta de estímulo à criatividade, a falta de cooperação no processo de ressocialização, o carácter impositivo do que é leccionado, um certo fedor a bolor, um distanciamento da energia que maritimamente agita o mundo, um nevoeiro pegajoso, afastado, alienante, uma escassez de inteligência pelos nossos conterrâneos, a desmotivação e um hálito a boémia nas esquinas, são algumas das razões que nos estatelam na areia fria do chão, e nos tolhem de um grito de cansaço e rancor perante a estagnação de certos meios do nosso quadrante intelectual.
Mas como nem tudo pode sucumbir perante o marasmo que cobre as neblinas de alguns meios, é importante notar que algo também se vislumbra no horizonte, um certo dourado de Verão, um fresco ar de humidade no nosso corpo, uma agitação fresca do bosque, qualquer coisa que renova a nossa alma, e nos faz buscar novamente as ansiedades juvenis. Esperemos é que algo se transforme e que a luta valha a pena. Como disse Fernando Pessoa" Tudo vale a pena se a alma não é pequena", e penso que tenha razão, há que continuar a crer.



Este escrito é dedicado a todos os meus companheiros que desistiram do curso de Direito da Universidade de Coimbra, especialmente a uma alma que me comove pelo humanismo esplendoroso, e pelo coração corajoso, Vítor Vilaça.

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