quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A crise e as respostas

Como primeira reflexão nestes espaço, decidi escolher um tema que me parece tão pouco discutido - a resposta à crise.

Parece-me, erróneamente, afastada a discussão entre qual a melhor resposta à crise. Especialmente depois da II Guerra Mundial, a questão pôs-se na dicotomia política financeira vs política monetária.

Hoje o espaço da união europeia chegou longe na integração monetária, mas ficou muito aquém na integração das políticas "fiscais". Porem, a política monetária, o mercado livre e não intervenção do Estado começam a mostrar o seu lado negro. E, segundo me parece, responde-se ao problema com o problema. Ou seja, responde à crise monetária com política monetária.

É certo que este não é mais o tempo dos Estados Nação keinesianistas, pois os pressupostos do Estado nação já não existem nos Estados integradores da União Europeia.

Porém, se ao nível de cada Estado já não é possível implementar políticas prórpias do Estado nação, pergunto eu se não é altura para dar um passo em frente na integração europeis e conceder essas políticas à união.

É certo que a opção entre políticas monetárias e políticas financeiras está subordinada a ideologias e não vou aqui expôr essas ideologias. Porém, pergunto eu, a quem serve a política e a economia? Servem elas ao Homem ou o Homem a elas?

Não compreendo como se ajudam empresas individadas com mais crédito. O dinheiros que entretanto foi posto ao serviço dos bancos não chega à economia real. Muito dele fica nos pequenos casinos das bolsas de valores.

O sector secundário foi menosprezado e a classe média destruída no seu consumo. É pois preciso repensar as políticas e entre monetário e fiscal optar por algo híbrido. Se é certo que dando dinheiro às famílias, através de pensões e outras políticas do género, há um aumento da inflação ao que os monetaristas oferecem solução com o rigor da escassez, também é certo que um fundamentalismo monetarista asfixia a actividade financeira porque nenhum homo oeconomicus digno desse título contrairá crédito para pagar crédito em épocas de dominó de falências...

Fica aqui uma pequena reflexão sobre os horizontes das soluções. Espero é que a luta ideológica sobre as políticas não mude.

Vítor Martins

4 comentários:

Rocha, André disse...

Caro Vítor Martins, antes de mais dou-lhe as boas-vindas a este espaço. Pelo que já li tenho a certeza que a sua passagem por este blog vai ser muito positiva para todos.

Regra-geral os preços sobem quando há uma menos produtos em circulação. Existe uma natural subida dos preços derivada da escassez. Vivemos numa era em que tudo se produz em quantidades enormes, algumas dessas quantidades são por vezes deitadas fora (literalmente) para que o custo de venda ao consumidor não baixe. Há muitos produtos cujo o seu preço poderia ser baixado. Muitos produtosem circulação no mercado chegam ao consumidor por 9 e 10 vezes mais caros do que o preço de produção. É pois estranho que a oferta desses produtos não seja aumentada com vista a baixar o preço dos mesmos. Não existe interesse das grandes multi-nacionais em aumentar a produção porque isso iria originar um aumento da mão-de-obra e uma diminuição de custo do produto.

A inflação acaba por ser, em grande parte, resultado da ganância de uns em relação a outros, resultado da exploração e abuso na aplicação dos preços.

Espartano disse...

"Espero é que a luta ideológica sobre as políticas não mude."

Um destes dias, num seminário perguntei a um líder político do nosso país, uma tal professor de economia: Se prevê sistema alternativo ao capitalismo; se o capitalismo acabaria por se auto-destruir como reflectiu Carl Marx?; Indaguei por propostas ao presente regime? O homem respondeu simplesmente que o capitalismo está para durar ao contrário das ideologias politicas que certamente terão alterações.

Uma semana depois juntam-se os partidos á esquerda e soam ecos de um novo partido.

O capitalismo no entanto injecta-se com o seu remédio e adia a doença que o levará à morte.

Julgo que tratamos aqui de uma questão brutal do teor das mentalidades, que ultrapassa as politicas, reflecte-se na economia como ciência que estuda os mercado e o capital, mas a ver só o tempo através do Homem pode ultrapassar com um novo virar de página, uma nova era: quem sabe mais humana e livre, menos capitalista e de classes.

Somos escravos deste regime. Como já alguém referiu, antes da esquerda e da direita, há os que têm e os não têm.

Abraços

contracorrente disse...

Hoje não se fala de outra coisa que não seja a questão da crise. Porém é um tema que tem carecido de uma honesta discussão por parte de muitos analistas perante o conjunto da população mundial. Ouvimos a toda a hora nos jornais e nas televisões coisas como “todos perdem com a crise” ou “volumes enormes de dinheiro tem se perdido com a queda das bolsas”(...)Porém esta "crise" vai no sentido de acumular somas gigantescas de dinheiro para grandes investidores, bancos e empresas privadas. Cada vez mais temos o aprofundamento das diferenças entre ricos e pobres, e o empobrecimento das classes médias. Há que fazer esta pergunta: a crise é para todos?Como perguntas no texto: "Porém, pergunto eu, a quem serve a política e a economia? Servem elas ao Homem ou o Homem a elas?"
Tive um professor que afirmou que precisamos de mais filósofos na economia do que economistas. Estes "economistas" que só vem números á frente da cara, são os mesmos que subordinam o homem aos interesses económicos e vem para as televisões fabricar opiniões e confundir as pessoas. Precisamos de debater com honestidade e clareza estas questões. Precisamos de debater a economia de um ponto de vista mais humano, virada para o homem de carne e osso.

Carlos Vinagre disse...

Eu penso que solução para a crise tem de ser bem ponderada. Devemos seleccionar onde colocar o dinheiro, medir bem os efeitos que a injecção de fundos públicos terá sobre a economia real. Acima de tudo, é precico uma política concertada europeia, onde as especificidade de cada país sejam tidas em conta.

Como disseste, o sector secundário foi profundamente desdenhado no actual modelo de desenvolvimento económico. Foi dada prioridade ao terciário, ao sector bancário e especulativo. Mas este fenómeno não é restrito a Portugal.

Por outro lado, o nosso país continua muito dependente do sector imobiliário. A construção civil ainda é responsável por uma percentagem contributiva para o PIB muito superior à média europeia. O sector do arrendamento deveria ser estimulado, e já está a ser, e as famílias deveriam reduzir a utilização do crédito para consumo. A taxa de juro enriquece uma dado banco. Há que ter em conta que que os bancos endividam-se, os portugueses, ou seja, x paga crédito mais juros, o banco por sua vez paga juros.

Visto ser o dinheiro injectado na economia, na banca, nosso, de todos os contribuintes, deveria pensar-se em exigir maior justiça na relação banco e cidadão. Maior transparência, melhoria da operacionalidade na justiça- utilizo operação para descrever o funcionamento, uma estratégia sólida, exequível, material viável e que respeite as exigências constitucionais-, aumento do salário mínimo, são tudo medidas necessárias a tomar.

Poder-se-ia criticar que um aumento nas empresas médias e pequenas do salário mínimo, reduziria a competitividade. Há que ter em conta uma realidade: sabe-se muito bem que nem todos os lucros das empresas são declarados ao fisco, há muita fuga. Que destino se dá a esses fundos??? Fortuna privada??? Outro facto importante: segundo a revista Seara Nova, as maiores fortunas pessoais cresceram nos últimos anos enormemente. É óbvio que alguma coisa tem de ser feita.

Aumentando o salário mínimo, aumenta o consumo, aumentando o consumo, pode-se colocar no mercado mais bens, bens que desvalorizarão se tivermos em conta o mercado. Em Inglaterra a roupa é baratíssima porque consome-se muito, os vendedores reparam que baixando os preços acabam por tirar o mesmo lucro, ou até superior em relação a um preço elevado. Há que democratizar o acesso a determinados bens. Para isso, suba-se o ordenado mínimo.

Um ponto ainda: sobe o salário, sobe o consumo, sobe o volume de tributação. Precisamos de uma política de redistribuição da riqueza, maior justiça social. O enriquecimento de x não é sinónimo de aumento de empregos, que x invista x em bens de equipamento, determinante para o crescimento económico. Problema de Portugal é o consumo de bens fúteis, símbolos de enriquecimento pessoal, utilizando uma linguagem mais sociológica.

Bem-vindo ao nosso espaço de discussão e opinião.