Round I
Muito se tem dito sobre as alterações em curso no sistema educativo. Pena é que o essencial não tenha sido abertamente discutido tanto nos noticiários, programas televisivos, jornais e instituições governativas. O país assombra-se em pequenas disputas, ódios e sentimentos revanchistas. A ministra alega que os sindicatos deturparam o sentido das conversações, de acordos firmados, os sindicatos contra-argumentam. Com tanta confusão, tanta marcha, tanta discórdia e debate, o que podemos dizer para contribuir para a reforma do país??? O que ninguém tem dito explicitamente, mas que no âmago, interiormente, deve sentir: Diálogo Sincero e construtivo.
É claro que os professores necessitam de avaliação. Nisso não residirá dúvida. Sabe-se que o Governo necessita de avaliação, o povo em momento oportuno exteriorizará o seu julgamento. Enquanto nos embrenhamos nestas questões, tudo se atola num antro de esquizofrenia mental, nada avança, o que deveria ser uma nova disciplina reformista e vanguardista passou para as fileiras do retardamento institucional e, em suma, uma sensação de desordenamento avança sobre o observador distante.
O que deveria ter sido feito??? A Sra. Ministra da Educação, como representante hierárquica de um serviço e pilar de uma sociedade democrática, tomaria o discernimento de elaborar uma equipa de estudiosos, conhecedores das disparidades do país, das suas especificidades, pedagogos, ou seja, um conjunto de especialistas e encetaria diálogo com as forças operantes no ensino, professores, pais, alunos, em busca de um consenso que fosse adequado a uma razoável aspiração de ambas as partes e em concórdia, iniciaria uma reorganização, uma reelaboração e reforma do ensino, tendo em conta um conceito ideal de cidadão na sociedade democrática, não desdenhando as necessidades do mercado laboral, não menosprezando as exigências orçamentais e os problemas que a globalização coloca a um minúsculo país: claro que o procedimento dialógico era fundamental, pena que actualmente muitos governantes o esqueçam.
Professores: há muita incompetência, muito desleixismo, é verdade. Mas não podemos tomar a parte pelo todo, é um erro lógico, gera conflito social, não leva à satisfação, condição estruturante do efeito laboral que é a qualidade do trabalho. Como somos um país de precariedade, normal que o Governo manifeste os vícios de que o povo padece relativamente. Não gozando na prática de saber socialmente reconhecido, como poderão aspirar à condução dos negócios do país??? Maus alunos é o que são, se estudassem um pouco de Antiguidade Clássica, decerto que não cometeriam determinados erros indesculpáveis quando se dirige uma sociedade- eu sei que tudo isto é um pouco abstracto, é-me possível apontar medidas concretas, sem se recorrer ao elemento coactivo que em vez de consolidar os agrupamentos, cria uma coesão, levando posteriormente ao dispersismo, à desorganização, não é que tenha acontecido empiricamente, mas se abstrairmos poderemos confirmar isto praticamente, tendo em conta a verdadeira natureza da coisa de que se fala.
Round II
Reformar o país da seguinte maneira: eleger a educação como a via privilegiada, investir financeiramente no reequipamento das escolas; apostar na sensibilização da sociedade com uma campanha pública, transparente e integradora; reordenar a rede de escolas públicas; apostar na estabilidade docente; acções subsidiárias de formação para os pais; aproximação da escolas às necessidades reais da sociedade no século XXI; avaliação docente, com critérios objectivos mas conpreensivos para o desempenho, ou seja, preenchimento por um técnico competente do desempenho do professor, tendo em conta os resultados dos alunos, a opinião subjectiva destes últimos e o grau de satisfação, audição do professor e das suas dificuldades morais, pessoais e materiais e por fim com um escala alargada dar-lhe uma avaliação quantitativa que poderia ser invertida desde que devidamente justificada, para evitar vinganças pessoais ou jogos de poder-não é essa uma das prioridades do Direito numa sociedade contemporânea???- ( não se esquecer a morosidade e as dificuldade que estes critérios poderiam fazer surgir, atrasos, de escoamento. Convinha que se definisse uma coação para quem utilizasse indevidamente o direito concedido a um docente, para evitar a ineficiência do processo.) ; acompanhamento minucioso por parte de técnicos, ao serviço do Ministério da Educação, do cumprimento da reforma, no sentido de fornecer apoio e auxílio aos estabelecimentos de ensino para cumprirem as medidas reestruturantes da educação. As câmaras municipais obviamente deteriam uma obrigação moral, indicativa, de acompanhar e disponibilizar as necessárias ajudas às instituições pedagógicas; criação de um pacto entre as principais forças político-partidárias para darem à tessitura reorganizadora um elemento de estabilidade; introdução de critérios avaliativos mais soltos das necessidades objectivas: criatividade; participação; trabalho extra-curricular por livre iniciativa; apoio didáctico para os alunos menos capacitados, sócio-economicamente, no sentido de atenuar as desigualdades; elaboração de um plano de actividades extra-curriculares: desportos, cultura, leitura, oficina de expressão dramática; redução do número de disciplinas até o actual nono ano, para evitar sobrecarga e a noção de obrigatoriedade que aflige muitos dos alunos portugueses; aposta na sensibilização para o valor e relevo da educação nos primeiros anos de ensino, até pelo menos o actual sexto ano; busca por parte da escola da elaboração de um laço próximo entre aluno, pai, professor, criando uma estrutura relacional que poderá ser vantajosa para o evitamento de posteriores conflitos; aposta em aulas participadas, com actividades diferentes, não tão agarradas ao programa a apreender pelo aluno; programas a leccionar que sejam realizáveis, que se adequem às necessidades da sociedade, que sejam compatíveis com o tempo disposto no ano lectivo para aulas; criação de uma plataforma inter-alunos, mais capacitados e menos capacitados, para se realizar experiências organizativas, de subsídio, donde se depreendia propostas para solucionar as questões que sempre existirão nas escolas, as naturais diferenças intelectuais e de personalidade do ser humano.
Round III
O anterior parágrafo indica sumariamente algumas medidas que poderiam ser tomadas em conta para a escola contemporânea. Por mais abstractas que sejam, um entendido na matéria rapidamente verá que não há grande inovação, que são ideias estimulantes, possíveis de se realizar desde que a escola se defina para o "político": como um espaço sério de integração, de criação de condutas socialmente relevantes, de dignificação do ser humano, de potencialização das capacidades singulares e individuais, tudo ajustado à idade de cada um, ao caminho que se prevê ser necessário para um pré-adulto experienciar e amadurecer, e conseguir seleccionar o caminho que mais convier às suas expectativas criadas. Infelizmente, nos dias que correm, ainda há dúvidas sobre o modelo organizativo a seguir. Como aluno que deixou o secundário há pouco tempo, sei bem o que os meus concidadãos aspiravam, das suas frustrações e angústias, basta de incompreensão política, basta de desrespeito pela profissão docente!!!
Como muitos sabem, um princípio pilar da União Europeia e das sociedade pluralistas e democráticas é o da integração. Esta conceito já nos orienta bastante, já nos diz de como nos devemos inspirar para criar um espaço educacional, verdadeiramente e não só na teoria como acontece, é constitucionalmente exigível, é comunitariamente indispensável, sobretudo, vivendo nós num tempo de angustiante fragmentação social, de sensação atómico-destruturante, não pode a escola alhear-se modelarmente das exigências que modernamente o mundo nos coloca. E o que faz o Executivo??? Desorganiza, ataca, impõem coactivamente, pela força do discurso vazio, pobre, inculto, um conflito que de nada serve os interesses de um país que se quer culto e educado para responder às necessidades tecnológico-universalizantes. Dito isto, ser-vos-á claro, somente recorrendo à vossa memória ocular que a impressão prevalecente e real é de que a educação e o princípio de integração e as relações com a plebe dirigente, não têm sido nada integrantes. Basta desabafar o desprezo que sinto pela nata elegante do topo da montanha, aquela que se diz esclarecida no processo de campanha eleitoral, mas que padece sempre diante de uma mercado obscuro aos olhos de um leigo alheado, contudo, bem real, bem próximo, ao virar da esquina. Seremos governados pela imagem que vemos todos os dias???, ou por um mundo oculto ao senso-comum quotidiano???
Paradoxo de Governação
Assiste-se a um ilogismo insolucionável na Democracia: a relação entre promessa e concretização. Pode-se dizer que a primeira versa a criação de expectativas irracionais; a segunda o despertar da racionalidade. O processo de poder é cíclico, em essência baseado sempre na mesma conduta, inalterável, ilusória, esperançosa. Consiste na poeira que cria uma bacia de misticismo e a ideia de futuro sorridente, motivacionalmente necessária para a renovação moral da sociedade, subsequentemente, a política pragmática impõe-se, a frustração destrona a esperança, cria-se assim as condições para a renovação política. O eterno retorno é o adjectivo conceitual das relações político-sociais. O poder na óptica da tomada, é sempre conservador, raras excepções toma as rédeas reformistas, sendo certo que contextualmente, só uma crise lhe dá garantias de razoável eficácia. E é de se apontar: a crise é um antro de desejo ao passado, por isso, a reforma visa a conservação do ambiente degradado, o retorno ao institucionalmente correcto, e é nessa linha que surgem as modificações qualitativo-sociais. Parto é certo de uma visão estagnada da natureza humana, inalterável, moldada muito lentamente, por isso, é quase como se existisse sempre como uma pedra. Em suma, pode-se dizer que a aspiração à progressão ascensional é que caracteriza sinteticamente a conduta humana.
Capitalismo E Comunismo
Acho de bom tom que se recupere o espírito empreendedor de se discutir modelos organizativos e seus pressupostos. Sem isso, uma renovação social é impossível, mesmo que ilusoriamente. Proponho neste blogue um amplo debate de ideias sobre esta matéria.
O capitalismo busca o lucro, o Comunismo criar um sem lugar dentro dum lugar. A igualdade, a condução progressivo-ascensional do homem, é a sua aspiração. O igualitarismo, a racionalidade, pautam este modelo organizativo-social. Inversamente, o Capitalismo firma-se na realidade animal humana, instintiva, menos moderada, sendo por isso identificado com os grandes desastres inumanos. É que domesticando ao seu prazer os instintos, racionalmente os recria, desregulando apetites, irracionalizando e bestializando o ser humano. Ambos são um paradoxo governativo, e deles se deduz uma generalidade teórica para a sociedade.
Penso que não faz sentido pensar-se tudo sem o retorno à Idade de Ouro, a Infância. Talvez fosse aí que Platão buscasse alguma inspiração para o seu conceito mundano-ingénuo. Pessoa, na veste de Caeiro, encarna com valor essa resposta à crise humana que atravessamos: se o ser olhasse com singeleza, de um olhar empírico-infantil, talvez evitasse muitos conflitos interno-intelectuais, talvez encontrasse a chave para muitas questões que o atemorizam, e a sociedade veria com lucidez o seu caminho humano-existencial. Não nos esqueçamos de uma coisa: as crianças aprendem, com a sua destreza, têm o mundo a absorver, buscar e aprender. Peguemos na Lição da racionalidade, misturemos num caldeirão a ingenuidade infantil, talvez nos seja revelado qualquer lux para os nossos labores, o Eterno Artista Ingénuo.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Como Reformar a Educação
Publicada por Carlos Vinagre à(s) 00:02
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1 comentários:
(aplausos)
na tentativa de quem esboça o contorno frágil e sutil do ser-humano inserido no desenvolvimentismo do progresso e da cultura de massa, acho valiosíssimo abordar esse tipo de tema com o enfoque que foi dado. Não se pode entender a educação longe de questões tão viscerais como o indivíduo e a comunidade.
Parabéns ao dono da postagem(!)
e busquemos o debate sincero do que seja a educação sincera aos filhos da Pátria, sempre.
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