quarta-feira, 17 de março de 2010

Crónica sobre os desafios da Europa da moeda única

Gostaria de partilhar este artigo de opinião de Pedro Lains, disponível no site do Jornal de Negócios.
Trata-se de um artigo de opinião, onde se debate de uma forma simples, acessível facilmente compreensível os grandes desafios que se colocam a uma "Europa em crise".

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O caminho para os problemas actuais não pode ser esquecido. Tudo começou - estranhamente já é preciso recordar - com a crise financeira ocorrida nos Estados Unidos em fins de 2007 (bem, na verdade, tudo começou antes, com o advento da China e da Índia nos mercados internacionais, mas esqueçamos isso por momentos).

Logo em 2007, os principais governos do mundo decidiram que desta vez a crise ia ser combatida. O combate envolveu a intervenção massiva nos mercados financeiros, por via da emissão monetária, e do aumento dos défices e das dívidas dos estados.

A solução veio todavia trazer novos problemas e hoje os governos em todo o mundo têm de se confrontar com novos problemas. E estão perante um dilema novamente, que é o de saber como reequilibrar as contas sem no processo asfixiar as economias.

Tudo complicado, portanto. Todavia, há uma parte do mundo em que as coisas são ainda mais complicadas. Precisamente, na Europa do euro. São mais complicadas porque não há um governo - e poucos neste momento querem que haja - que possa determinar como os reequilíbrios serão alcançados e como os custos desses reequilíbrios serão distribuídos.

Não estamos perante o fim do mundo, pois os países não abrem falência nem desaparecem, mas estamos perante um dilema. Trata-se de escolher entre seguir uma solução guiada sobretudo pela acção individual dos Estados ou, alternativamente, seguir uma solução coordenada.

Que não haja dúvidas de que todos ganharão se a solução for coordenada. Mais, os últimos dois anos provaram que essa coordenação não só é desejável do ponto de vista do bem-estar económico das nações - pois a alternativa é sempre o temível proteccionismo -, como as nações têm mostrado que a querem levar por diante. E que solução será essa?

No passado, quando havia moedas nacionais, a solução era simples. Bastava desvalorizar o que se desejasse e esperar-se que isso não provocasse mais desequilíbrios. Esse tipo de solução acabou por se mostrar pouco consistente e foi isso, aliás, que levou à criação do euro.

alternativas à desvalorização que passam sobretudo, no curto prazo, pela redução dos salários nominais. Ora isso não é bem uma solução, pois só pagariam a crise os menos abonados dos países menos abonados.

A solução para a crise passa pela transferência de capitais dos países com excedentes nas suas balanças externas para os países com deficits. Não há outra solução para a Europa do euro se ela quiser, como aparentemente os seus cidadãos ainda querem, ser uma união cada vez mais próxima.

As transferências financeiras dentro da Europa são obviamente boas para a economia europeia no seu todo. Que não haja confusão entre transferências financeiras e transferências de riqueza. É a velha lição de Keynes (não confundir com keynesianismo), que não foi seguida no rescaldo da primeira Guerra Mundial, mas que foi seguida no rescaldo da segunda.

Tais transferências têm, todavia, de ser enquadradas num determinado discurso político, têm de ter um enquadramento institucional adequado, e têm de ser feitas de forma a impedir o benefício do infractor. Mas com esse tipo de problemas pode a União Europeia bem, pois a sua história é obviamente marcada pela procura dos bons enquadramentos para que haja esse tipo de transferências.

Foi assim com o Plano Marshall, com a reestruturação da indústria do carvão e do aço, com a política agrícola comum, e com a adesão dos países mais pobres. Tudo isso foi fruto da necessidade, não de visões particularmente argutas.

Só não tem sido assim com a criação do euro - porque até hoje não foi necessário. Mas agora é claramente necessário e podemos esperar que a solução venha daí. Mas, claro, com um custo.
O custo será a perda de mais alguma soberania. Ninguém esperaria que as transferências fossem feitas sem a imposição de medidas de disciplina aos países receptores.

Quem está preparado para isso? Esperemos que muita gente. Afinal, a alternativa é o domínio das políticas guiadas pela estrita contabilidade financeira, que não é mais do que uma forma de nacionalismo - e de proteccionismo - económico.

Versão integral disponível em: http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=415391

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